Avaliação na Educação Infantil
 

Avaliação na Educação Infantil

 

            Olhando o significado da palavra avaliar, temos como significado: ?1. Calcular ou determinar a valia, o valor, o merecimento de. 2. Tr. dir. Reconhecer a grandeza, a intensidade, a força de: A. a dor. 3. Tr. dir. Apreciar. 4. Tr. dir. Computar, or?ar. 5. Tr. dir. Fazer idéia de?, e avaliação ?1. Ato ou efeito de avaliar. 2. Apreciação. 3. Valor de bens, determinado por quem avalia. (Michaelis Eletrúnico)?, que pressup?e o valor da criança perante os demais, direcionando a questão discriminativa. Creio que o correto, e o mais apropriado, seria termos como referência o conceito de acompanhamento do desenvolvimento da criança.

            Quando falamos em avaliação, somos remetidos a um cenário opressor, de apontamentos de defeitos e seletivo, em que os alunos são classificados conforme seu rendimento (nota ou ficha de avaliação), não respeitando sua individualidade e seu ritmo de construção do conhecimento.

            Devemos tomar estas questões como algo do passado, que servirão como ponto de refer?ncia para onde não devemos trilhar.

            aliás, a criança tem muitas qualidades a serem observadas e enaltecidas, e não devemos transpor o boletim sobre essas qualidades.

            Diante de um grupo de alunos, a criança deve ser vista em suas particularidades. O que difere em ser avaliada através de mecanismos que procuram atestar o cumprimento do planejamento.

            Na verdade existe um ponto de interrogação quanto a avaliação na educação infantil. Como avaliar?

            O processo de avaliação utilizada pela maioria das escolas de Educação B?sica está conceituada no surgimento da avaliação por volta do século XVII e massificada no século XIX (Perrenoud, 1999), influenciando a Educação Infantil.

            Para avaliar uma criança, à necessário conhecê-la, conviver com ela, de modo observa-la a partir de atividades propostas com objetivos direcionados à construção do conhecimento.

            Avaliar não à simplesmente preencher uma ficha no final de cada semestre, onde constará comportamento e postura pedagógica do educador (Hoffmann, 2000).

            A avaliação seletiva está num cenário separado da educação; não existe um processo contínuo, onde a intenção seja atender a instituição escolar e a ansiedade das famílias.

            O professor ao preencher as fichas avaliativas, parece estar brincando de "jogo da velha", onde existem questões direcionadas para preencher com "X".

            Pensando neste ponto, onde está o estudo sobre o aspecto cognitivo da criança, social, educativo, trabalho docente? não existe o comprometimento com este direcionamento.

            A avaliação seletiva (com provas, fichas semestrais onde o professor assinala com "X", com aspecto uniforme a todos os alunos), não está a serviço da aprendizagem muito menos do trabalho reflexivo de professor.

            O professor para praticar uma avaliação comprometida com a formação da criança, necessita romper com os moldes da avaliação seletiva, e re-significar a maneira com a qual ele poderia propor uma avaliação que esteja comprometida com os princípios básicos para o desenvolvimento da criança.

            Levando em conta todos os aspectos mencionados, remeto-me a pensar como posso avaliar uma criança de 0 a 6 anos de idade. Como compor um componente curricular que condiz com sua realidade e necessidade, e estando na posição de ensinante e aprendente, que esta avaliação possa me propor a reflexão sobre o fazer.

            Para significar a importância que tem a relação entre professor/aluno e para que esta relação esteja garantida sem a interferência da seleção, poder-se-ia dizer que o principal instrumento de toda avaliação formativa , e continuar sendo, o professor comprometido em uma interação com o aluno (Perrenoud, 1999). Esta interação, também, a observação do aluno como indivíduo único compartilhando com os demais, e devemos entender e atender as necessidades de cada um partindo do pressuposto de que sua construção do conhecimento à dicotomizado.

            As observações do professor devem ser investigadas, mediadoras atendendo à criança e o comprometimento do professor com a formação do indivíduo, e não simplesmente preenchimento de questionários e fichas avaliativas que tratam as crianças com uma homogeneidade que não existe, atendendo à avaliação seletiva.

            Na avaliação da Educação Infantil, deve-se analisar aspectos familiares, sociais perante os colegas e instituição, saúde para que possa estar comprometido com a mediação das necessidades da criança.

            Para avaliar, à necessário entender à lógica da criança, assim como ela demonstra a partir de exercícios e brincadeiras direcionadas a colher dados.

            Mesmo através de exercícios e brincadeiras, não podemos rotular a criança, pois cada uma se encontra num ritmo de desenvolvimento.

            além do comprometimento do professor deve-se ter um planejamento que procure atender no máximo à criança em seu aspecto s?cio-cultural, ambiente interativo, rico em materiais para exploração.

            O planejamento da Educação Infantil está preocupado com a preparação do indivíduo para a seriação do Ensino Regular, e deixando de lado o direito da criança conceber o conhecimento e exercitar suas habilidades motoras, bem como, sua cognição.

            Para que a escola e o professor possam se propor a este fazer, à necessário a contextualização do fazer, para que se proponha a um trabalho qualitativo, deixando o assistencialismo da creche e pré-escola colocados em segundo plano, conforme comenta Deheinzelin (apud Hoffmann, 2000):

"Gradativamente, estudos e pesquisas invalidam as funções assistencialista e compensatória da creche e pré-escola. Estudos de sociologia destacam a sua função social em nosso tempo à devido ao processo de industrialização acelerado, conclamando o trabalho feminino e alterando os costumes da família; devido à perda de espaço de brinquedo e segurança das crianças deixadas sozinhas em sua casa; aliados esses fatores aos estudos sobre a importância de um trabalho educativo especializado junto as crianças, como um direito social da infância. Estudos de antropologia, que estudam o contexto social próprio das populações infantis, invalidam igualmente, a idéia de uma pré-escola preparatória, considerando a criança no seu tempo e nas suas necessidades imediatas de atendimento e educação, conforme conclui."

 

            Partimos do pressuposto de que a criança constrói o conhecimento na interação com o objeto (Piaget, 1970). Sendo assim, a criança somente irá assimilar algo no momento que ela esteja predisposta a interagir com este objeto (esta pré-disposição à inconsciente), não através de uma interação imposta pelo outro. A criança somente irá assimilar quando seus estímulos interagirem com a ação, e não a ação interagir com a criança. então a ação (objeto) somente irá interagir com a criança no momento que ela interagir antes com a ação, caso contrário não ocorre assimilação.

            Assim, o professor deve perceber que cada criança encontra-se num momento de construção do conhecimento que difere dos seus colegas, e a avaliação tradicional não tem mais espaço nos dias de hoje.

            As fichas avaliativas não demonstram o momento que a criança está vivenciando, e sim, procuram um rótulo para significar o trabalho pedagógico. A avaliação não à um momento retirado do processo, e sim, o acompanhamento da criança através de atividades contextualizadas reforçando o papel do professor investigativo, procurando refletir sobre o raciocínio da criança.

            Propondo o comprometimento do planejamento escolar para a construção do próprio conhecimento.

            Sendo assim, a avaliação sai do comportamentalismo e conteudismo, criando em aspecto de busca da qualidade e contextualização de cada atividade com a criança.

            Pesquisas em escolas públicas e particulares podem constatar a articulação curricular com o modelo do Ensino Regular, que acabam passando conteúdos e até excesso de conteúdos aos alunos, sem uma proposta clara, em que o entendimento esteja direcionado ao entendimento do professor e não do aluno, conforme Hoffmann:

 

"1- áreas do conhecimento e/ou desenvolvimento infantil:

Desenvolvimento motor, conhecimento físico, conhecimento lógico-matem?tico, conhecimento social, conhecimento espaço-temporal, linguagem e representação (gráfica, plástica, musical, corporal e outras), desenvolvimento sócio-afetivo.

 

2- áreas temáticas:

língua Portuguesa e Literatura, matemática, Estudos Sociais, ciências, música, Dança, Teatro, Desenho, Pintura, Escultura, religião, Educação Física, informática e outras ciências.

 

3- Atividades em Educação Infantil:

Ouvir, contar, e representar histórias; conversar sobre fatos do cotidiano; jogar, explorar jogos e materiais diversos; observar e cuidar de plantas e animais; cozinhar; desenhar, pintar, amassar, rasgar, recortar, colar e modelar; cantar, dançar e brincar com instrumentos musicais; brincar de correr, pegar, pular, esconder; alimentar-se; fazer a higiene; organizar o material e o ambiente; passear e visitar outros ambientes; operar e brincar com jogos de computador, etc... (Hoffmann, 2000).?

 

            Existe uma diferença muito grande em trabalhar áreas temáticas e pedagogia dos projetos. As áreas temáticas trazem a obrigatoriedade conteudista e comportamentalista. já a pedagogia de projetos, contextualizada suas atividades para chegar ao objetivo que se compromete com a socialização, aspectos cognitivos e afetivos como comenta Sampaio (apud Hoffmann, 2000):

 

"Nesse tipo de atividade que mobiliza todas as crianças, e em que cada uma à mobilizada como totalidade, não à apenas o seu aspecto cognitivo que está envolvido à são a sua emoção, o seu sentimento, o seu prazer, são as suas intuições que materializam na realização do projeto. O tempo todo, a criação individual e o coletivo estão presentes, pois falar em criação coletiva não significa anular o ser único que à cada criança. à medida que a criança interfere no projeto, ela o faz carregando consigo toda a história: história pessoal, que está ligada a uma história familiar, que traz consigo uma história de classe, que está ligada ainda a uma outra história de nacionalidade..."

 

            Trabalhando com esta contextualização, o professor passa a dar espaço para a criança demonstrar suas emoções, estruturar melhor o pensar, tendo um trabalho dirigido a necessidade do aluno, onde a criança passará a criar a partir de suas conclusões. Este comprometimento propicia a criança conclusões sobre o fazer a partir de si mesma e dos colegas, onde suas construções são enaltecidas e trabalhadas individualmente e em grupo.

            Quando se propõe ao modelo de avaliação a serviço da aprendizagem, esta se comprometendo em planejar atividades que proporcionam a ação reflexiva da criança. As atividades são elaboradas para que se transmitam conceitos sociais, responsabilidade, participação, respeito mútuo, trabalhando também o cognitivo e motor. Estes conceitos estão de certa forma caminhando juntos, e a criança irá assimilar com as atividades no momento que ela interagir com esta atividade (Piaget, 1970). Onde também através da convivência em grupo aprende-se com o outro, e o estímulo para pré-disposição da interatividade esteja na interação com o outro.

            Jamais devemos cobrar da criança os objetivos das atividades, fato que ocorre em escolas estruturadas a partir de áreas de conhecimento (comum em escolas de Ensino Fundamental e Módio), estes objetivos estarão sendo alcançados gradativamente através das atividades propostas, que são estímulos reflexivos para o aluno.

            Avaliando a criança, respeitando o seu ritmo de construção do conhecimento, entendo que tudo para ela à significativo, e sua vivência hoje à "precedente as próximas conquistas (Hoffmann, 2000)".

            Sendo significativo para o professor não avaliar pelas áreas temáticas, devemos resignificar como descrevemos esta avaliação.

            Não há sentido, se incorporarmos o modelo de avaliação a serviço da aprendizagem e transcrevê-la como avaliação seletiva.

            Devemos ter como base que a descrição da avaliação tradicional (seletiva), leva a comparações, o que à muito significativo para as famílias e alunos.

            O que se nota de muito comum nas escolas regulares, quando os alunos recebem as notas, à a comparação entre os colegas e a rotulação dos que não foram bem. Isto à fato de que a vivência na escola não tem signific?ncia, não existe o olhar investigativo do professor, sobrepondo um número a vivência do aluno.

            A avaliação deve ser descritiva, demonstrando os aspectos em que o aluno está se desenvolvendo. Este modelo de avaliação "provoca o olhar reflexivo do professor sobre seus desejos, interesses, conquistas, possibilidades e limites, tornando-o participe de sua caminhada (Hoffmann, 2000)", o professor através da observação está em constante investigação sobre seus alunos, podendo propor atividades que condizem com o momento que estão vivenciando e redirecionar o planejamento da escola.

            Em momento algum podemos deixar que a avaliação descritiva esteja a serviço do anseio burocrático da escola, tendo em vista atender à instituição e não as necessidades dos alunos.

            O caminho para começarmos a compreender a necessidade em lidar com a Educação Infantil de maneira diferenciada, à entender que estamos trabalhando com a criança hoje, criando o alicerce para o adulto quando em sociedade, e não somente para o adolescente quando escola. A partir deste ponto, procurar contextualizar-se e discutir para criar a consciência para a mudança, conforme Zabalza (1998): "...não existem verdades absoluta e que tudo pode e deve ser discutido. Mas com a mesma convicção teríamos que afirmar que nem tudo que se faz ou fazemos em Educação Infantil à bem feito...", neste ponto de vista nos colocamos sempre na posição de ensinantes e aprendentes.

            Para que tenhamos comprometimento com a formação social de nossos alunos, entendendo que todos os momentos da vida escolar tornam-se significativas, e que sejamos um referencial para este momento significativo, propor a avaliação descritiva (a serviço da aprendizagem) para valorizar o aluno em sua individualidade.

            através da avaliação descritiva, estamos propondo informações mais organizadas, pois quando lançamos mão de nossos esquemas mentais para escrever sobre o aluno, repensamos nossa fala para descrevê-las, conforme Hoffmann, 1999, pág. 65:

 

"Vygotsky valoriza a linguagem escrita, porque à mais reflexiva que a linguagem oral. através da fala, organizamos nosso pensamento. A escrita, representando a nossa fala, exige uma reorganização do pensamento, uma maior reflexão e conexão entre as idéias defendidas. através da escrita, o educador pode distanciar-se de si mesmo e refletir sobre essas idéias "corporificadas", analisando-as, interpretando-as, analisando os "quadrosó ali esbo?ados, no sentido de encontrar outras respostas para as situações vividas ou melhores caminhos a percorrer."

 

            A partir desse pressuposto, passamos ter consciência que listas de presença, boletins com nota, fichas avaliativas pré-estabelecidas, conceitos ligados a satisfação não faz mais parte da a realidade do fazer do professor, pois o professor investigativo à aquele que está sempre em busca para propor meios de aprendizagem que atendam as necessidades dos seus alunos, e estão sempre o observando para que não deixe de atende-los.

            Creio que até as dificuldades de aprendizagem, momento em que trabalham atividades direcionadas as necessidades dos alunos, estas dificuldades na vida escolar poderão ser menores e até serem reparadas. Neste momento, farão questão em grifar mais uma vez como à importante o papel do professor investigador.

            Os relatórios dos alunos não podem constar comparações entre colegas, respeitando a individualidade do seu processo de construção do conhecimento.

            Para o relatório do professor, são delineados alguns pontos para facilitar o direcionamento. Em que áreas de conhecimento o aluno tem mais avanço? Quais são as observações que te levaram a realizar tais anotações?

 

-         Demonstra alguma área melhor trabalhada. De que maneira pode intervir? Qual a contribuição da família?

-         Quais são as observações sobre o relacionamento da criança? Qual a postura do professor diante dos conflitos ?  Sugestões à família.

-         Qual a opinião dos pais sobre o trabalho da escola e desenvolvimento da criança.

-         Como a criança olha para suas construções? O que o professor sente quando a criança tem contato com suas construções.

 

O professor ao realizar relatórios diários e relatórios gerais, está tendo a oportunidade em estar contextualizando pontos significativos para a qualidade do seu trabalho,  bem como visando estar pesquisando sobre as necessidades do aluno. através dos relatórios diários, podemos direcionar melhor o trabalho pedagógico, e até mesmo estar revendo nossas ações perante a criança refletindo o fazer.

Os relatórios gerais têm por finalidade o direcionamento das atividades do professor em sala de aula com o grupo, verificando a adequação para poder estar sempre em busca de melhorá-la, levando a reflexão sobre os interesses do grupo de crianças que está atendendo.

 

Evaldo de Albuquerque Lima

 

 

 

Referência Bibliográfica:

 

Dicionário Eletrônico Michaelis, 1988.

HOFFMANN, Jussara Maria Lerch. Avaliação na pr?-escola: um olhar sens?vel e reflexivo sobre a criança. Porto Alegre: Mediação, 2000.

PIAGET, Jean. A construção do áreal na criança. são Paulo: ética, 3 ed, 1996.

PERRENOUD, Philipe. Avaliação: da experiência à regulação das aprendizagens à entre duas lógicas. Porto Alegre: Artes Médicas Sul, 1999.

ZABALZA, Miguel A. Qualidade em educação infantil à Porto Alegre: Artmed, 1998.

 

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